O jogo de poder de Orban no gasoduto: como um cano danificado está a bloquear 90 mil milhões de euros para a Ucrânia
Existe uma certa audácia em concordar com algo e, depois, fingir que nunca o fez. Viktor Orban parece ter aperfeiçoado essa arte.
O Primeiro Ministro da Hungria está atualmente a bloquear um empréstimo de 90 mil milhões de euros da UE à Ucrânia, um pacote desenhado para cobrir dois anos de apoio militar e económico enquanto a guerra da Rússia entra no seu quinto ano. A sua razão declarada? Um oleoduto danificado. A sua razão real? Bem, há eleições a 12 de abril e as sondagens não parecem brilhantes.
O Problema do Oleoduto
A 27 de janeiro de 2026, um ataque de drone russo atingiu infraestruturas perto da estação de bombagem de Brody, no oeste da Ucrânia, destruindo uma secção do oleoduto Druzhba. Para os menos informados, o Druzhba (que ironicamente se traduz como "amizade") tem bombeado crude russo para a Europa central há décadas. A Hungria e a Eslováquia dependem fortemente dele.
A Ucrânia declarou força maior e o petróleo parou de fluir. A Hungria queixou-se imediatamente, com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Peter Szijjarto, a afirmar que tudo não passava de um "jogo político" coordenado entre Kiev e Bruxelas.
A Ucrânia, por sua vez, apontou o facto bastante óbvio de que foi a Rússia a bombardear o local.
O Impasse do Empréstimo
É aqui que a situação se torna verdadeiramente absurda. Todos os 27 estados membros da UE aprovaram o empréstimo de 90 mil milhões de euros numa cimeira em dezembro de 2025. Orban incluído. Ele concordou. Depois, discordou, condicionando o seu apoio ao restabelecimento do fluxo de petróleo através do Druzhba.
"Se não há petróleo, não há dinheiro," declarou Orban num vídeo nas redes sociais, entregando o tipo de frase feita que funciona bem internamente, mas que deixa os outros líderes da UE a precisar de analgésicos.
A UE ofereceu uma solução razoável: apoio técnico e financeiro para reparar o oleoduto. O Presidente da Ucrânia, Zelenskyy, aceitou, estimando que as reparações demorariam cerca de seis semanas, desde que a Rússia não o bombardeasse novamente. Uma ressalva justa, diria qualquer um.
Não foi suficiente para Budapeste. Na cimeira da UE a 19 de março de 2026, a Hungria, juntamente com a Eslováquia, recusou levantar o veto, deixando o empréstimo num limbo.
O Elefante na Sala em Forma de Eleição
Vários líderes da UE foram refrescantemente diretos sobre o que está realmente a acontecer. O Chanceler alemão, Friedrich Merz, classificou-o como um "ato grosseiro de deslealdade." O Primeiro Ministro da Finlândia, Petteri Orpo, disse que Orban está a "usar a Ucrânia como uma arma na sua campanha eleitoral." O Primeiro Ministro holandês, Rob Jetten, rotulou o veto como "inaceitável."
Orban está atrás do líder da oposição, Peter Magyar, do Partido Tisza, nas sondagens antes da votação de 12 de abril na Hungria. Representar o homem forte que enfrenta Bruxelas enquanto mantém os preços da energia baixos é um manual bem conhecido do Primeiro Ministro húngaro. Se os eleitores vão acreditar desta vez, resta saber.
O Que Acontece a Seguir
A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a UE entregará o empréstimo "de uma forma ou de outra," sugerindo mecanismos para contornar totalmente o veto da Hungria. A Croácia ofereceu uma rota alternativa para o petróleo. E com a UE já a planear uma proibição permanente ao petróleo russo esperada para a primavera de 2026, a dependência da Hungria pelo crude do Druzhba parece cada vez mais um problema criado por si própria.
Entretanto, a Eslováquia escalou o assunto ao interromper o fornecimento de energia de emergência à Ucrânia, o Presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, declarou que "ninguém pode chantagear" as instituições da UE, e os preços do petróleo permanecem acima dos 100 dólares por barril devido à volatilidade mais ampla no Médio Oriente.
A conclusão é esta: um oleoduto que a Rússia bombardeou está a ser usado pela Hungria para bloquear ajuda ao país que a Rússia está a bombardear. Se esta frase o deixa confuso, bem-vindo à diplomacia da UE em 2026.
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