A Aposta de Trump na Redistritação: Missouri Vence, Carolina do Sul Vacila
A campanha de redistritação de Trump venceu no Missouri mas travou na Carolina do Sul. Saiba o que está em jogo nas eleições de meio de mandato nos EUA.
Se a política americana em 2026 tivesse uma trilha sonora, seria o barulho constante de lápis riscando mapas congressionais. A missão do presidente Donald Trump de redesenhar os distritos da Câmara antes das eleições de meio de mandato teve uma terça-feira bastante turbulenta, com um triunfo nos tribunais do Missouri colidindo com um tropeço legislativo embaraçoso na Carolina do Sul. O resultado é um placar da redistritação que parece menos uma vitória fácil dos republicanos e mais um dia de caos fora de casa.
Dois estados, duas terças-feiras muito diferentes
Em Jefferson City, o Supremo Tribunal do Missouri emitiu duas decisões unânimes horas após as alegações orais, mantendo o novo mapa congressional do estado. É uma velocidade judicial que beira a precipitação, e entregou aos republicanos uma vitória limpa.
Enquanto isso, em Columbia, o Senado da Carolina do Sul realizou uma votação que os republicanos tinham todos os motivos para acreditar que seria aprovada sem dificuldade. Não foi. O placar ficou em 29 a 17, dois votos abaixo da supermaioria de dois terços necessária, depois que cinco republicanos cruzaram o corredor para se juntar a todos os democratas e votar não.
Um estado avançou o plano de Trump. O outro tropeçou silenciosamente sobre ele. Bem-vindo à temporada de redistritação.
Missouri: um mapa que faz um caminho bem tortuoso
O mapa do Missouri está fazendo uma ginástica geográfica de respeito. O distrito com sede em Kansas City, antes um recorte relativamente organizado que se estendia por cerca de 30 quilómetros por dois condados, foi esticado para aproximadamente 320 quilómetros por 15 condados. Isso não é bem um distrito congressional, é quase um roteiro de viagem.
A ideia, de forma ampla, é diluir os eleitores democratas fiéis de Kansas City misturando-os a um mar de apoio republicano rural. Os críticos chamaram de um desastre de compacidade. O tribunal discordou, rejeitando tanto o desafio à compacidade quanto o argumento de que a apresentação de uma petição de referendo deveria suspender automaticamente o novo mapa.
Esse segundo ponto é importante. Os opositores têm até 4 de agosto de 2026, que coincide com o dia das primárias do Missouri, para ter as assinaturas da petição de referendo validadas pelo secretário de Estado Hoskins. Mesmo que obtenham sucesso, o mapa permanece em vigor por ora. É uma vitória dupla, processual e substantiva, para os republicanos, o tipo que os advogados emolduram e penduram na parede.
O Missouri se torna o segundo estado liderado por republicanos, depois do Texas, a redesenhar seus distritos congressionais por iniciativa de Trump. Os dominós, ao que parece, estão caindo.
Carolina do Sul: quando os seus próprios piscam
A Carolina do Sul deveria ser a fácil. Os republicanos têm supermaioria no Senado. A matemática deveria ser simples. Em vez disso, cinco senadores republicanos olharam para o mapa proposto, fizeram alguns cálculos discretos e decidiram que preferiam não apoiar.
Por que os pés frios? Em uma palavra: dummymanders. É o termo pouco elegante para um gerrymandering que sai pela culatra para o próprio partido que o desenhou. O novo mapa supostamente tinha como alvo o assento do veterano democrata James 'Jim' Clyburn, mas para isso seria necessário dispersar eleitores democratas fiéis por outros distritos. Dispersá-los demais e o resultado não é um mapa 6 a 1 para os republicanos, mas sim 5 a 2 ou 4 a 3, com assentos antes considerados seguros de repente parecendo vulneráveis.
Vários republicanos claramente preferiram o pássaro na mão. A votação falhou. Para a campanha de redistritação de Trump, é o primeiro vacilo de verdade.
O quadro geral: uma corrida armamentista nacional
Para os leitores portugueses que se perguntam por que tudo isso importa, aqui vai a versão curta. A Câmara dos Representantes dos EUA está tão dividida que um punhado de assentos redesenhados pode decidir quem controla o Congresso, o que define quais legislações passam, o que por sua vez determina o que acontece em tudo, desde saúde até política climática. As apostas não são pequenas.
Segundo estimativas recentes da agência AP, os republicanos poderiam conquistar até 14 assentos com os novos mapas no Texas, Missouri, Carolina do Norte, Ohio, Flórida e Tennessee. Os democratas poderiam recuperar seis na Califórnia e em Utah. A aritmética favorece o Partido Republicano, mas os tribunais e o senador estadual rebelde ocasional continuam complicando as coisas.
Adicionando mais lenha: uma decisão recente do Supremo Tribunal que enfraqueceu a Secção 2 da Lei dos Direitos de Voto. Distritos que antes precisavam preservar a representação de minorias maioritárias já não enfrentam o mesmo escrutínio, o que encorajou as assembleias legislativas republicanas a redesenhar fronteiras que teriam sido juridicamente explosivas há alguns anos.
Virgínia, Alabama e a disputa jurídica
A ação não se limita a dois estados. Na semana passada, o Supremo Tribunal da Virgínia derrubou um esforço de redistritação democrata que poderia ter produzido quatro assentos competitivos. Ou seja, os tribunais estão penalizando os dois partidos, dependendo do dia e do banco.
No Alabama, a governadora Kay Ivey agendou uma primária especial para 11 de agosto de 2026, abrangendo quatro dos sete distritos congressionais do estado. Em outras palavras: os eleitores nesses distritos estão prestes a ter uma agenda bem cheia.
Louisiana: quando a política fica feia de verdade
E depois há o Louisiana, onde o debate sobre redistritação azedou em algo genuinamente preocupante. O senador estadual Jay Morris, que preside um comité de redistritação, disse a membros do público para "calar a boca" durante uma audiência acalorada. A resposta foi desproporcional e assustadora.
No fim de semana seguinte, o gabinete de Morris recebeu cerca de 150 mensagens de voz. Uma delas teria pedido um massacre em massa. Ameaças de morte se seguiram. A procuradora-geral do Louisiana, Liz Murrill, condenou publicamente as ameaças, e com razão. Seja o que for que se pense dos modos de Morris, não é assim que o desacordo democrático deveria funcionar.
O senador estadual Gary Carter se retirou do comité de redistritação e está a ser substituído pelo senador Royce Duplessis. A rotatividade continua, mas o mal-estar permanece.
O que tudo isso representa
A terça-feira foi um lembrete útil de que a redistritação não é uma batalha única, mas uma guerra ampla, travada em várias frentes, nos tribunais, nas assembleias estaduais e, lamentavelmente, nas caixas de entrada de mensagens de voz. O avanço de Trump tem impulso, mas impulso não é o mesmo que uma vitória limpa.
O Missouri mostra o que acontece quando os tribunais agem rapidamente e a unidade republicana se mantém. A Carolina do Sul mostra o que acontece quando os próprios senadores ficam nervosos com o excesso. O Louisiana mostra o que acontece quando a temperatura sobe de forma perigosa.
Para quem acompanha de Portugal, onde as revisões de fronteiras eleitorais são geridas por uma comissão independente e amplamente ignoradas pelo público, este é um estudo útil sobre como o desenho de mapas abertamente político funciona na prática. É confuso. É lento. E está longe de acabar.
Espere mais decisões judiciais, mais votações e mais linhas traçadas em lugares que desafiam a geografia. As eleições de meio de mandato ainda estão a meses de distância, e os mapas ainda estão a secar.
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