A ONU acaba de classificar a escravidão como o 'crime mais grave contra a humanidade' e três países discordaram
A Assembleia Geral da ONU votou 123 a 3 para classificar o tráfico transatlântico de escravos como o crime mais grave contra a humanidade, pedindo reparações.
Em uma votação que realmente deveria ter sido unânime, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução histórica declarando o tráfico de africanos escravizados como o 'crime mais grave contra a humanidade'. O placar? 123 a favor, 3 contra e 52 abstenções. Para quem está acompanhando, os três países que votaram não foram os Estados Unidos, Israel e Argentina. Tire suas próprias conclusões.
O que a resolução diz na prática
Aprovada no Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, o título completo da resolução é longo: 'Declaração do Tráfico de Africanos Escravizados e da Escravidão Racializada de Africanos como o Crime Mais Grave contra a Humanidade'. O texto pede pedidos formais de desculpas, restituição, compensação, reabilitação e contribuições para um fundo de reparações, embora, notavelmente, sem especificar um valor.
A resolução também insta a devolução de itens culturais, desde obras de arte e monumentos até peças de museus e arquivos, aos seus países de origem, sem custos. Vários curadores de museus europeus sentiram um calafrio coletivo percorrer suas espinhas.
Gana assume a liderança
A resolução foi liderada por Gana sob o comando do presidente John Dramani Mahama, que também foi nomeado Campeão da União Africana em Reparações. Ao se dirigir à Assembleia Geral, Mahama adotou um tom poderoso: 'Hoje, nos reunimos em solene solidariedade para afirmar a verdade e buscar um caminho para a cura.'
Ele também fez uma intervenção linguística pontual, declarando: 'Não existe algo como um escravo.' O reenquadramento é importante. A linguagem molda como entendemos a história, e a insistência de Mahama em se referir a pessoas escravizadas em vez de 'escravos' ressalta que a escravidão foi algo feito às pessoas, não algo que elas eram inerentemente.
Os números por trás do horror
O tráfico transatlântico de escravos, que durou cerca de 400 anos, do século XV ao XIX, viu cerca de 12,5 milhões de africanos serem enviados através do Atlântico. De acordo com números citados por grupos de defesa, os salários não pagos devidos ao povo africano são estimados entre 2 a 3 trilhões de dólares, com a extração colonial não paga adicionando outros 4 a 6 trilhões de dólares. Para contexto, a dívida externa de todo o continente africano está atualmente em torno de 1,5 trilhão de dólares. A matemática não é nada sutil.
Quem ficou em cima do muro
O Reino Unido, juntamente com estados membros da UE, optou pela abstenção. O embaixador britânico James Kariuki reconheceu as 'consequências devastadoras e os impactos de longa duração' da escravidão, o que é um linguajar diplomático para 'sabemos que isso aconteceu, mas não estamos prontos para discutir a conta'. A abstenção já gerou reações no Parlamento britânico.
E agora, o que acontece?
Aqui está o ponto: as resoluções da Assembleia Geral não são juridicamente vinculativas. Ninguém vai assinar cheques amanhã. Mas descartar isso como mero simbolismo seria míope. A União Africana já havia adotado sua própria resolução de apoio em fevereiro, e a Argélia aprovou um projeto de lei em dezembro de 2025 declarando a colonização francesa um crime contra a humanidade. Um padrão está se formando.
A resolução também pede uma Conferência Internacional sobre Crimes de Colonialismo, que promete ser o encontro diplomático mais desconfortável desde, bem, a última vez que alguém tentou discutir reparações.
O ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, talvez tenha resumido melhor: a iniciativa 'não é sobre comparar sofrimentos históricos, mas sobre garantir reconhecimento e dignidade'. Em um corpo de 193 membros onde apenas três países conseguiram votar contra esse princípio, a direção parece clara. A questão não é mais se essa conversa acontecerá, mas quão rápido ela passará das palavras para a ação.
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