Esqueça o petróleo: a crise no Estreito de Ormuz está a afetar o seu telemóvel, a sua comida e a sua ressonância magnética
O encerramento do Estreito de Ormuz ameaça cadeias de abastecimento globais, desde medicamentos e tecnologia até à segurança alimentar. Entenda o impacto real.
Não se trata apenas dos preços da gasolina
Quando as pessoas ouvem "fecho do Estreito de Ormuz", o pensamento vai logo para o petróleo. É compreensível. Mas, enquanto o mundo se fixa nos preços por barril, uma coleção muito mais estranha e variada de bens está silenciosamente a ser feita refém pela geografia. Estamos a falar de fertilizantes, hélio, componentes de smartphones, medicamentos genéricos e até o enxofre usado no fabrico de pneus de automóveis. O estrangulamento em Ormuz, ao que parece, não é apenas uma história sobre petróleo. É uma história sobre tudo.
Desde a escalada do conflito entre os EUA, Israel e o Irão, o transporte marítimo através do estreito colapsou. O tráfego caiu de mais de 100 navios por dia para apenas um punhado, de acordo com dados da S&P Global Market Intelligence. Isso não é uma desaceleração. É um encerramento quase total de um dos pontos de estrangulamento marítimo mais importantes do planeta.
O seu prato está em risco
De acordo com as Nações Unidas, cerca de um terço das remessas mundiais de fertilizantes transitam normalmente por Ormuz. Se isso for cortado, as colheitas sofrem um impacto global. O Instituto Kiel para a Economia Mundial modelou um cenário de encerramento total, estimando que os preços globais dos alimentos poderiam subir cerca de 3%. Algumas projeções específicas para determinadas mercadorias sugerem que os preços do trigo, fruta e vegetais poderiam subir ainda mais, embora esses números granulares sejam difíceis de verificar de forma independente.
Os países menos equipados para absorver tais choques seriam os mais atingidos. Os modelos do Instituto Kiel apontam para perdas significativas de bem estar para nações como a Zâmbia, Sri Lanka, Taiwan e Paquistão, todas fortemente expostas a fluxos comerciais interrompidos.
E aqui está o detalhe que deveria deixar os analistas geopolíticos nervosos: a Rússia, já um dos maiores exportadores mundiais de fertilizantes, com cerca de um quinto da oferta global, está pronta para preencher a lacuna. Nada diz "oportunidade estratégica" como a cadeia de abastecimento do seu rival a desmoronar se.
Hélio: a crise invisível
Aqui está uma que provavelmente não previu. Cerca de um terço da oferta mundial de hélio provém do Qatar, enviado através do mesmo estreito. Os ataques iranianos com mísseis e drones forçaram a enorme instalação de Ras Laffan, no Qatar, a fechar, com a QatarEnergy a declarar força maior nos carregamentos de GNL. Algumas estimativas sugerem que as reparações poderão levar anos, embora a liderança da QatarEnergy tenha indicado que reinícios parciais poderão ser possíveis assim que as hostilidades cessarem.
Porque deveria importar se pelo hélio? Não é apenas para balões de festa. As máquinas de ressonância magnética dependem de hélio líquido para arrefecer os seus ímanes supercondutores, e os especialistas notam que o hélio evapora gradualmente durante os exames e precisa de ser reposto regularmente. Os hospitais de todo o mundo poderão enfrentar sérios estrangulamentos de diagnóstico.
A indústria de semicondutores está igualmente exposta. Em 2023, a Associação da Indústria de Semicondutores dos EUA sinalizou o hélio como um insumo crítico e alertou para potenciais picos de preços caso o abastecimento fosse interrompido. Pois bem, aqui estamos nós.
Medicamentos, produtos químicos e o efeito dominó
A Índia produz cerca de um quinto das exportações mundiais de produtos farmacêuticos genéricos. Grande parte dessa oferta move se através de rotas marítimas do Golfo e centros de carga aérea. Com as operações do aeroporto do Dubai severamente perturbadas, o efeito dominó para o fornecimento global de medicamentos é real e imediato.
Depois, há o enxofre. Cerca de metade do comércio mundial de enxofre por via marítima passa por Ormuz. O enxofre é essencial para o fabrico de tudo, desde fertilizantes (sim, outra vez) até borracha e detergentes. Os países do CCG também contribuem com uma quota notável da produção petroquímica global, alimentando plásticos e materiais usados em inúmeras indústrias.
O panorama geral
A crise de Ormuz é uma aula magistral sobre o quão interligadas são as cadeias de abastecimento modernas. Um conflito numa região não afeta apenas as mercadorias óbvias. Ele propaga se para as salas de espera dos hospitais, prateleiras dos supermercados e fábricas de eletrónica do outro lado do planeta. A lição, se é que existe uma, é que a dependência de pontos de estrangulamento é uma vulnerabilidade que escolhemos coletivamente ignorar durante demasiado tempo.
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